
Do Entre
Este quadro não é composição — é pulsação. Um intervalo como instante criativo.Numa superfície dividida por cruzes vermelhas que se assemelham a costuras e cicatrizes, o artista não pinta — interrompe. Cada quadrante — amarelo, rosa, verde, laranja — não são campos isolados, mas instantes sensoriais: intervalos onde o tempo se suspende, onde o traço se torna presença, onde a cor se revela como força cuidante.
Uma ontologia do Entre: o que parece divisão — as linhas vermelhas, os bordos desenhados, as formas que se sobrepõem — não é separação, mas encontro. O intervalo não é vazio — é campo semeado, o momento em que o ser se deseja manifesto através das figuras que se fundem num só ritmo, mas em perspetivas divergentes.
O intervalo aqui não é pausa — é explosão: o momento em que o espírito se revela através da matéria, em que a cor se torna presença, em que a forma se desfaz para dar lugar ao que está por detrás da aparência. A arte, neste sentido, cumpre sua função metafísica: não imitar, mas desvelar, tornar visível a precariedade partilhada que nos constitui como seres sociais e corporais — e, nesse molde, convocar uma ética do cuidado e do reconhecimento mútuo.