
Entre o Caos e a Geometria do Espírito
Este quadro não se oferece à vista — exige a contemplação. É uma tentativa de ordenar o que resiste à ordem.
O vermelho que corta a composição não é cor — é gesto ontológico: um raio que atravessa o caos, uma ferida luminosa que revela o que está por trás da superfície. Ele não une — divide, para melhor revelar. É a marca do espírito que insiste em existir mesmo no meio da fragmentação.
As formas escuras, as manchas de azul-turquesa, os pontos de ouro e vermelho que parecem estilhaços de memória — tudo não oculto, mas num potencial perseverante, que ainda não é, mas já pulsa a ser sendo. O caos aqui não é ausência — é plenitude em movimento, a matéria no seu desejo de ser.
A pintura, então, torna-se ritual: um ato de invocação daquilo que não pode ser dito, mas que se sente na textura, na camada, no gesto que não foi planeado, mas necessário. A arte, neste sentido, cumpre sua função metafísica: não imitar, mas desvelar — revelar o real que precede a forma, que a habita e a despedaça.