
Epifania
Este quadro não se limita a representar um objeto ou uma paisagem; antes, é um acto de geração. Esta obra é um emaranhado em gestação — um cosmos microcósmico onde a matéria e o espírito se entretecem numa balança de linhas, manchas e texturas.
O centro da composição, com as suas formas arquitetónicas fragmentadas — janelas que não enquadram, portas que não conduzem —, evoca uma habitação do ser, mas não do corpo físico, sim da alma em processo. É a casa interior, aquela que “morada do pensamento”, onde as paredes são feitas de cor e os tetos de sonhos. As cores não são apenas pigmentos, mas vibrações cósmicas: o verde-água do fundo é o líquido primordial, o âmbar central é a chama da consciência, o azul elétrico das linhas é o impulso da ideia que se desenha no caos.
As linhas finas, quase nervuras, que percorrem o espaço, não delimitam, mas conectam — são veias do mundo, raios de um elan vital que flui entre o orgânico e o geométrico, entre o acidental e o intencional. A textura rugosa, a camada de tinta acumulada, o rasgo aqui, o borrão ali — tudo isto é a prova da mão do artista como mediador entre o divino e o terreno. Não reproduz o mundo, mas recriá-lo, dando forma ao que ainda não tem nome. Aqui, o tempo não avança linearmente; ele está congelado num instante de criação eterna. O quadro não termina nas bordas da tela — continua no olhar que o contempla, na memória que o reconstitui, no silêncio que o habita. É uma metafísica visual: um lugar onde o espírito se encarna na cor, onde a linha é oração, onde o caos é ordem em gestação.
Assim, este quadro não é uma imagem, mas um acontecimento ontológico — um ato de revelação da essência das coisas através da sua desintegração e reconfiguração. E aqui, no meio deste universo colorido e desordenado, o invisível — o pensamento, o sentimento, o mistério da existência — tornou-se, enfim, visível. Aqui, não se nomeia um objeto, mas um processo: a habitação do espírito no mundo da matéria — ou a “arte como revelação do inefável”.