
A Imanência do Instante
Este quadro não é imagem — é instante imanente. Não evoca um momento capturado, mas o instante como campo de forças em acto, onde o tempo não flui linearmente, mas se condensa numa tensão vibrante, num gesto que ainda não terminou de nascer.
O instante não é ponto no tempo — é ponto de génese, lugar onde a forma se esforça por ser, onde o invisível se torna visível sem perder a sua essência dinâmica. A pintura aqui não representa o instante, ela é o instante em estado de imanência: as espirais não são curvas, mas ritmos suspensos; os pontos não são marcas, mas pulsares; as linhas diagonais não são traços, mas tensões que se estendem entre o caos e a ordem.
O verde profundo do fundo não é cor — é tempo cristalizado, o silêncio antes do som, o espaço onde o devir se prepara para acontecer. Neste quadro, o instante não passa — habita, como uma presença viva, como um sopro que não se esgota. E é nessa imanência que reside a verdade da arte: não há um além, não há uma transcendência, só o agora que se esforça por ser, que se revela na sua própria fragilidade, na sua própria imperfeição, na sua própria urgência de existir. Aqui, o instante não é medido, é sentido, escutado, respirado.
E é por isso que a obra não se fecha, ela abre-se como um organismo vivo, convidando o espectador a entrar na sua dinâmica vital, a participar da sua duração, a reconhecer que, no coração da forma, está sempre o esforço de perseverar no ser neste instante que nunca será outro.