
Superfície como Memória
Este quadro não é pintura — é escavação. Numa superfície dourada que evoca o tempo, dispõe-se camadas de vestígios: adesivos repetidos, traços de tinta, manchas de cor que se sobrepõem como fragmentos de um passado que insiste em voltar. Não há perspetiva, nem figura — apenas presença: a presença do que foi colado, rasgado, coberto, revelado. A arte, aqui, torna visível o esquecido.
Cada adesivo, cada número “5”, cada forma oval ou retangular, é um rasto de consumo, de identidade, de tempo vivido e descartado. O gesto pictórico não nega esse lixo — sacraliza-o, transformando-o em monumento da existência cotidiana. O preto e o azul que cortam a composição não são cores — são interrupções, momentos de silêncio no fluxo da repetição. São as pausas que dão sentido ao movimento, os espaços entre as palavras que permitem a leitura do poema.
Nesta obra, onde o acaso e a intenção se confundem, o que foi colado por necessidade torna-se símbolo; o que foi pintado por impulso torna-se ritual. A matéria, então, não é suporte — é testemunha: ela guarda o que a memória humana já perdeu. Nesta superfície, a arte não representa — reconstrói. E reconstruir é sempre um ato de resistência: contra o esquecimento, contra o efémero, contra a despersonalização do mundo. Por isso, este quadro não se vê — habita-se.