
Território de Intensidades
Este quadro não se apresenta como uma paisagem ou figura, mas como um território de intensidades, um campo de forças onde a matéria se torna símbolo e a cor, linguagem do espírito. É dar forma ao que ainda não tem nome — esta obra é um ritual de geração cósmica, em que cada pincelada, cada mancha, cada círculo, é um gesto de revelação.
O vermelho vibrante, quase líquido, que domina a esquerda, não é apenas cor — é energia primordial, o fogo da criação, o sangue do mundo em embrião. Nele, as linhas verdes verticais funcionam como veias, canais por onde flui o impulso vital, conectando o caos à ordem, o instinto à ideia. É o magma da existência, onde formas ainda se desenham, ainda se desfazem — um espaço de possibilidade infinita.
À direita, o amarelo luminoso, coberto por uma teia de círculos concêntricos, evoca um universo ordenado, uma constelação de olhos, de células, de mundos microscópicos, com se fora uma “poética da geometria viva”. Os pontos, repetidos, ritmados, são como pulsos do ser, batimentos cardíaco, sinais de vida num cosmos em expansão. Aí, a razão e o instinto dançam juntos: o círculo, símbolo da unidade, é também o ponto de partida da multiplicidade.
No centro, a forma que assemelha-se a uma cabeça ou um rosto, desenhada com traços incisos, não representa uma face humana, mas a presença do pensamento no meio do caos. É o eu que emerge, não como identidade fixa, mas como processo, um ser em formação, entre o abismo vermelho e o céu amarelo. As pequenas formas quadradas, como janelas ou portas, não conduzem a lugar nenhum, são aberturas para o “inefável”, pontos de contacto entre o visível e o invisível.
Aqui, a criação é violenta, jubilosa, mística — um acto de metafísica pictórica, onde a tela é o altar e o pigmento, sacrifício. Este título encerra a emergência do espírito (o pensamento) a partir do caos material (o vermelho), mediado pela ordem simbólica (os círculos, os quadrados). Não é uma representação, mas uma epifania: o intervalo onde o silêncio se torna cor, onde o nada se torna forma.
É um quadro que não se olha — habita-se. Como um templo, como um útero, como um mapa de forças que nos atravessam. Um verdadeiro acontecimento ontológico, onde a arte não explica o mundo, mas revela o seu segredo mais profundo: que tudo está em movimento, em gestação, em eterna criação. Não há figura — há força. Não há espaço — há ritmo. O quadro é um altar da intuição, onde o caos se ordena por dentro, e a beleza nasce da tensão entre o ser e o devir.