
Verão Psiquiátrico
Este quadro não é composição — é revelação sensorial. Este título desloca o verão do domínio da estação para a dimensão orgânica do ser humano, um campo do corpo em estado de sobrecarga afetiva, onde o calor não é temperatura, mas intensidade interior, e o “psiquiátrico” não designa uma doença, mas um território da experiência sensível desregulada, um espaço onde os sentidos se desenredam da lógica, onde a cor pede para ser acudida, e a forma como fénix renascida.
O fundo avermelhado não é céu — é pele febril, um vestígio de uma realidade vivida, mas reprimida. A obra não é composição porque não busca harmonia — ela revela o caos como ordem da verdade sensorial, o descontrolo como modo de presença no mundo.
É revelação sensorial, de algo que sempre esteve à vista, mas que só agora, na sua intensidade crua, é possível fazer-se sentir: o peso do olhar, o zumbido das cores, o silêncio dos gestos que se recusam a ser nomeados.
Neste quadro, a arte não ilustra — ela transmite, como quem passa por um período febril, angustiado, mentalmente disruptivo, uma alegria que não cabe em palavras. E é nesse estado de exposição total — entre o corpo e o ambiente, entre o psíquico e o físico, entre o que se vê e o que se sente — que reside a sua verdade mais profunda: que o verão psiquiátrico não é um lugar de cura, mas um lugar de revelação — onde o que foi silenciado pelo diagnóstico, pela norma, pela razão, finalmente se torna visível, audível, palpável — e, nessa revelação, nos obriga a reconhecer que a loucura não é uma ausência de sentido, mas um excesso de vida, de sensação, de presença que não pode ser contida.